Solução na Mídia

As novas exigências do mercado de trabalho

Para disputar uma vaga no atual mercado de trabalho, não basta apenas ter um bom currículo profissional. Além da formação técnica, incluindo o domínio de pelo menos dois idiomas e de recursos de informática, é necessário preencher alguns requisitos fundamentais.Uma pesquisa da Arthur Andersen Consultores confirma esta tese e aponta que as organizações buscam no profissional, entre outros, visão de futuro, liderança, criatividade e versatilidade. Além de se adaptar às novas exigências do mercado, os trabalhadores precisam enfrentar uma competição ainda mais difícil: disputar vagas em um mercado cada vez mais retraído pela queda na oferta de empregos.

Na indústria fluminense, este quadro vem sendo detectado desde o início da década de 90, atribuído em grande parte à reestruturação industrial. De acordo com os indicadores da FIRJAN, no entanto, o setor começa a dar sinais de recuperação.O total de postos eliminados no ano passado – 25,4 mil – foi inferior ao de 1998, quando foram demitidas 42,8 mil pessoas. “De fato, o segundo semestre de 99 marcou uma desaceleração da redução do pessoal ocupado” explica a gerente de Estudos e Pesquisas da FIRJAN, Luciana de Sá.

Estudos – O professor José Pastore, que há 40 anos realiza estudos no campo do trabalho, diz que, na verdade, a sociedade foi subdividida em mundo do emprego e mundo do trabalho. Em recente artigo intitulado “O Trabalho na Virada do Século”, o professor alerta que o primeiro encolhe a cada dia e o outro se expande a cada hora. “Os seres humanos e as instituições terão que acompanhar essas mudanças”, alertou.

Ele concorda que “hoje já não basta ter um diploma, é preciso ter respostas e não é suficiente ser especialista, é necessário saber um pouco das profissões correlatas”. Seguindo esta teoria, Miriam Adissi, do Grupo Catho, explica que enquanto nos anos 80 exigia-se um perfil especialista dos trabalhadores, a década de 90 privilegiou os profissionais polivalentes. Segundo ela, o novo profissional deve ser um generalista, ou seja, possuir conhecimentos gerais que o permitam compreender atividades que fujam da sua especialidade, agregando valores à sua carreira. “A carreira é como um produto e todo bom produto tem que ter um diferencial”, explica.

A diretora corporativa de Recursos Humanos da Telemar, Renata Moura, ressalta que a experiência e a formação profissional são fundamentais, mas comprometimento, flexibilidade e espírito de liderança são imprescindíveis para preencher o perfil exigido hoje pela organização. “Foi preciso treinar todo o quadro para que pudesse apreender o novo conceito de prestação de serviços que a empresa estava propondo”, acrescentou.

A diretora comercial da Solução Recursos Humanos, Moema Aquino, calcula que as mudanças exigidas hoje ao trabalhador estão em curso há pelo menos cinco anos, provocadas, principalmente,pela informatização, globalização e inovações tecnológicas.

O vendedor Inácio Marcelino, de 41 anos, descobriu isso quando tentou mudar de ramo e que teria poucas chances por não ter qualificação.”Há dois anos tentei procurar emprego em outra área, mas nenhuma porta se abriu. Tive que começar do zero”, disse. Para mudar de vida, Inácio fez um curso de inglês e outro de eletrônica industrial no SENAI-RJ, que lhe dará base para o de telecomunicações. “Estou me informando sobre este setor e sei que terei chance de me colocar no mercado se estiver bem preparado”, conclui.

Oportunidades – Com a abertura do mercado, o setor de telecomunicações está entre os mais promissores. A Telemar, por exemplo, contratou cerca de dois mil profissionais no ano passado somente no Rio. O setor de petróleo é outro que promete ser uma das portas para o emprego na próxima década, quando deverá receber investimentos de US$ 80 bilhões. Segundo o diretor-geral da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (ONIP), Eduardo Rappel, o fato é que muitas das profissões que serão demandadas sequer existem hoje formalmente no país.É o caso de engenheiro de reservatório ou químico de lama. Por conta disso, a ONIP está montando um grupo de trabalho para identificar as demandas de profissionais neste segmento. “É um mercado de trabalho promissor, mas estes profissionais precisam ser qualificados, ter conhecimentos de informática e falar inglês”, completa Rappel.

Para atender às novas demandas do setor industrial, o SENAI-RJ redirecionou sua atuação e criou, há quatro anos, os Comitês Técnicos Setoriais. Quem dita as regras são os especialistas de empresas, universidades e representantes de sindicatos dos trabalhadores, além dos profissionais da instituição. “Esta é uma visão inovadora, em que buscamos a informação no próprio mercado. Precisamos de todos os profissionais que possam nos dar subsídios para as mudanças e adaptações necessárias”, disse a diretora de Educação do SESI-RJ/SENAI-RJ, Regina Torres.

Já foram criados 12 comitês em áreas como Metal-Mecânica; Telecomunicações; Sildagem; e Subaquática. Estão em fase de montagem os das áreas Automotiva, de Plástico e de Indústria Naval e Offshore. Já foram mapeados 45 títulos profissionais que até então não eram abordados em cursos oferecidos pelo SENAI-RJ e extinguiram alguns que já não atendiam à demanda das empresas, a exemplo de desenho mecânico e mecânico de manutenção e de operador de Cad. Segundo a gerente de Estudos e Avaliações do SENAI-RJ, Cristina Fontoura, todas as ocupações definidas são as mais demandadas pelo mercado.

Carta da Indústria – Janeiro de 2000.