Solução na Mídia

Auto-ajuda é que não falta

Conselhos para profissionais se adaptarem às exigências das empresas, terem mais qualidade de vida e alcançarem metas. Esses são os temas de livros atualmente vistos como um dos principais filões do mercado editorial: o chamado light business . Na Câmara Brasileira do Livro (CBL), esses lançamentos fazem parte do segmento de auto-ajuda que, na última década, segundo seu diretor-executivo, Armando Antongini, cresceu de 5% a 10% ao ano.

Embora os números de 2005 ainda não estejam fechados, a estimativa da CBL é de que tenham sido lançados cerca de 600 títulos de auto-ajuda no ano, com mais de três milhões de exemplares vendidos. Deste total, cerca de 30% são voltados para o universo corporativo. Segundo editores e consultores de recursos humanos, esses livros vendem tanto porque se adaptam à realidade de profissionais de diferentes escalões de uma empresa.

— Com a globalização, a competição no mercado de trabalho está cada vez mais acirrada. Assim, o profissional busca não somente qualificação técnica, mas também orientação para a carreira. Certamente, é um mercado que nunca ficará saturado — diz Antongini, da CBL.

Muitas empresas estão, inclusive, fazendo encomendas de livros desse segmento para presentear seus funcionários. Para o chanceler da Universidade Estácio de Sá e um dos fundadores da Ebape/FGV, Nelson Mello e Souza, esses títulos têm vantagens e desvantagens:

— A sua inegável vantagem é a de resolver alguns problemas, como falta de liderança, relacionamento, ou seja, questões imediatas. Mas, há também uma dramática desvantagem: tais publicações não facilitam a compreensão do todo, não ampliam a visão de mundo. E fazem com que as transformações, quando radicais, peguem esses executivos na contramão.

Livro está no topo há mais de um ano

Apesar do sucesso, essas publicações ainda não conquistaram a todos. Ainda há quem as veja como literatura menor, como o presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Jorge Mattoso:

— Valorizo muito meu pouco tempo livre: prefiro ler livros de economia e finanças e, sempre que possível, uma boa literatura.

Já para o empresário do ramo de entretenimento Luis André Calainho, existem muitos livros no mercado com uma abordagem séria dos temas liderança, espírito de equipe e crescimento profissional:

— Recentemente li, por exemplo, “O monge e o executivo”, que estimula a boa energia e contribui para o crescimento. É preciso apenas adaptar o conteúdo à realidade de cada um.

“O monge e o executivo”, do americano James C. Hunter, é, de fato, um fenômeno de vendas. Há há um ano e quatro meses ininterruptamente nos rankings dos maiores sucessos, vendeu 600 mil exemplares só no Brasil desde que foi lançado pela Sextante. Em 2005, foram 545 mil, só 40 mil a menos do que “O Código da Vinci”.

Segundo o empresário Arthur Sendas, esses livros têm um grande mérito — o de capturar a atenção do leitor:

— No primeiro livro de auto-ajuda profissional que li, o “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, uma frase me marcou muito: ninguém gosta de obedecer a quem não ama. Até hoje me guio por isso.

Sendas refere-se ao primeiro livro de auto-ajuda publicado no Brasil, do americano Dale Carnegie, que já vendeu 50 milhões de exemplares no mundo. Publicado em 1937, ainda hoje é um dos livros que mais vendem — cerca de 50 mil exemplares por ano, segundo a Companhia Editora Nacional, dona dos direitos no Brasil.

Editoras criam selos para o segmento

Por causa do estrondoso sucesso dos livros que tratam de crescimento profissional, muitas editoras criaram selos específicos para o segmento. É o caso da Record, que publica títulos de light business pela BestSeller, e da Siciliano, que criou o selo Futura — e que já representa 44% do total de lançamentos do grupo. Entre os lançamentos mais vendidos da Futura, estão o “Como trabalhar para um idiota”, de John Hoover, e o “Chefiar ou liderar — Seu sucesso depende dessa escolha”, de John Adair.

— Hoje sabemos de tudo que acontece em todo lugar do mundo, em todas as áreas de negócios, por isso os profissionais são cobrados para dar conta de tudo. Esse é o princípio do sucesso desses títulos — diz Janice Florido, diretora editorial do Grupo Siciliano.

A criação de um selo seria um preconceito contra os livros desta categoria? Janice garante que não:

— Trabalhamos com três selos, cada um com uma área de atuação. Trata-se de uma estratégia de mercado para fixar o segmento de cada marca na cabeça do leitor.

Sérgio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, também comemora os frutos: em agosto, a Best-Seller publicou uma edição comemorativa pelos 15 anos do livro “Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes”, de Stephen Covey, que já vendeu 15 milhões de exemplares em todo o mundo.

— Mas o maior sucesso editorial da década, o “Quem mexeu no meu queijo”, de Spencer Johnson, publicado pela Record em 1998, vendeu 21 milhões de exemplares no mundo, sendo um milhão no Brasil — lembra Machado.

Companhias adotam leitura em treinamento de equipes

A consultora Moema de Aquino, diretora da Solução Recursos Humanos, ressalta que muitas companhias recomendam a leitura de livros de auto-ajuda profissional em treinamentos de equipes.

— A empresa usa da seguinte forma este tipo de leitura: ela dá uma bibliografia e, para envolver os funcionários em treinamentos feitos em lançamentos de produtos ou modificações de técnicas, promove uma dinâmica de grupo na qual discute tópicos desse livro adequando-os àquela realidade empresarial — conta a consultora, ressaltando que essa deve ser uma leitura complementar.

Entre os livros mais recomendados pelas empresas para seus funcionários está o “Pai rico, pai pobre”, de Robert Kiyosaki e Sharon Lechter, publicado pela Campus/Elsevier, que vendeu 650 mil exemplares no Brasil. Avesso a livros de auto-ajuda, Rogério Chor, presidente da construtora CHL, conta que até chegou a começar a ler esse livro. E a primeira parte até o surpreendeu, de maneira positiva.

— Mas depois comecei a achar que se tratava de fórmulas prontas. E é preciso muita sorte para que uma situação se repita exatamente como foi com o autor — diz Chor.

Livros brasileiros também são exportados para os EUA

E não são só os grandes executivos americanos que exportam seus conselhos. “Três minutos para o sucesso”, de Ricardo Bellino, e “Caminhos e Escolhas”, de Abílio Diniz, ambos editados pela Campus/Elsevier, já ganharam versões em inglês e serão publicados nos Estados Unidos.

Bellino — empreendedor responsável por iniciativas como a implantação da filial brasileira da Elite Models — conta como nasceu a idéia de escrever “Três minutos”, depois que conheceu o bilionário americano Donald Trump e o convenceu a investir na construção, em São Paulo, da Villa Trump, que será o maior complexo de golfe do Brasil:

— Eu o conheci, por um amigo comum, e falei da idéia. Trump ficou com isso na cabeça, me chamou e me deu três minutos para convencê-lo de que o projeto era bom. Consegui fazer isso e daí nasceu o nome e o livro. Antes, eu nem era leitor desses títulos pois os via, na maioria, como uma pretensa tábua de salvação. Mas sempre gostei de conhecer histórias de vida, de como pessoas conseguiram atingir resultados — conta Bellino, presidente do Instituto do Empreendedor.

O Globo - Caderno Boa Chance
15/01/2006