Solução na Mídia

Cresce a presença feminina em áreas tipicamente masculinas

Poeira, graxa e calor já não afastam as mulheres das profissões consideradas masculinas. Para marcar o Dia Internacional da Mulher – 8 de março – o Carta da Indústria mostra que a presença delas em um mercado de trabalho onde tradicionalmente o homem tem mais espaço é uma realidade. Apesar de algumas dificuldades, o considerado “sexo frágil” não desiste. Pelo contrário, as mulheres insistem e estão contrariando todas as regras.

A engenheira mecânica, especializada em soldagem, Andréa Nogueira, 26 anos, é um bom exemplo. Depois de concluir um curso de soldagem no SENAI-RJ, em1988, Andréa tornou-se a segunda mulher no país a obter a qualificação de inspetora de solda nível 1 e hoje é uma profissional bem sucedida em uma área restrita aos homens. Ela trabalha na gerência de Reparos da GE-Celma, em Petrópolis, recuperando turbinas de avião e diz que nunca pensou em mudar de área. “Sou apaixonada pela área de soldagem, não saberia fazer outra coisa”, garante.

Qualificação – Para disputar o mercado com o sexo oposto, as mulheres estão investindo na qualificação. É o que mostra a freqüência nas salas de sulas do SENAI-RJ. Em 1998, o total de mulheres estudando na instituição era de 6,7 mil, segundo dados da Gerência de Estudos e Avaliações (GEA) do SENAI-RJ. Um ano depois, a presença delas nos cursos aumentou 16,13%, totalizando 7,8 mil. As mulheres já disputam vagas para cursos nas áreas de construção civil, soldagem e mecânica de automóveis, entre outros,que há alguns anos eram procurados basicamente por homens. “As mulheres estão cada vez mais competitivas, mostrando sua competência através da qualificação, que é o principal diferencial em qualquer área de atuação”, garante a diretora de Educação do SESI-RJ e do SENAI-RJ, Regina Torres.

Isso não significa, contudo, que não existam mais tabus e preconceitos, segundo a diretora comercial da Solução Recursos Humanos, Moema Aquino. “Esta alteração no perfil se deve, principalmente, às oscilações sócio-econômicas e às oportunidades de trabalho. Com o mercado restrito e o número de empregos cada vez menor, as mulheres precisaram procurar novas áreas de atuação para contribuir com a renda familiar”, explicou.

Moema constatou, por exemplo, que as mulheres migraram para profissões consideradas masculinas, como eletrotécnica, que começaram a oferecer mais chances de trabalho. No ano passado, elas já representavam 10% da força de trabalho nesta área, enquanto em1997 eram de apenas 2%. As auxiliares de produção, uma função típica de alguns segmentos industriais, também conquistaram seu espaço e hoje respondem por 43% das vagas preenchidas, um índice que não chegava a 15% há três anos. “Até a engenharia registrou um crescimento da participação feminina no mercado de 5% para 15% nos últimos três anos”, exemplificou Moema.

A concorrência masculina não intimidou Aline Lima Lúcio, de 20 anos. Apaixonada por carros, ela fez três cursos na Agência Automotiva do SENAI-RJ e trabalha como mecânica em uma oficina. “Meu objetivo agora é abrir um negócio próprio e já estou investindo nisso”, garante. A aluna do curso Básico de Mecânica de Automóveis, Ana Paula Furtado, 20 anos, também planeja trabalhar por conta própria. “Já estou me preparando para começar a comprar os equipamentos e montar meu negócio assim que terminar o curso”, garantiu.

Esta área do SENAI-RJ, que inclui outras profissões afins, registrou grande demanda de mulheres em seus cursos. De acordo com a GEA, a procura foi quase sete vezes mais do que há três anos.No ano passado, 81 mulheres se matricularam nesses cursos, contra 12 em 1997.

Mãos à obra – O segmento de construção civil também vem registrando uma boa performance. No ano passado, 210 mulheres fizeram algum tipo de curso na escola do SENAI-RJ, enquanto há três anos foram registradas 12 matrículas.Nos dados do Ministério do Trabalho este setor também se destacou. Em novembro de 99, cerca de 11,4 mil mulheres trabalhavam na construção civil no estado do Rio de Janeiro e em 97 eram 8,1 mil.

Muitas vezes, a descoberta da profissão é fruto do acaso. Cleusa Alves Magalhães, por exemplo, procurou o SENAI_RJ como objetivo de encontrar profissionais que pudessem fazer uma obra em sua casa. Quando chegou lá, achou os cursos interessantes e decidiu apostar neste mercado. Acabou virando uma expert: já fez cursos de pedreiro, estucador, desenho técnico, tecnologia de concreto e básico de marceneiro. Agora, ela se prepara para iniciar outros dois: de pintura e básico de telhado.

“Minhas amigas dizem que eu sou maluca, mas adoro obra. Estou terminando a minha casa e tenho vontade de trabalhar com construção, mas vou selecionar os trabalhos que eu quero fazer”, diz ela. Na opinião de Cleusa, as mulheres têm uma vantagem sobre os homens: são mais cuidadosas. “Nós somos mais caprichosas, principalmente quando o assunto é acabamento. Neste setor não tem comparação”, afirmou.

A garçonete Cátia Cilene Carvalho da Costa, ex-aluna do SENAI-RJ, também está investindo na construção civil e garante não temer o preconceito. “Os homens podem até se sentir ameaçados pela concorrência, mas isso não me assusta porque estou me preparando muito”, informou. Por outro lado, as mulheres são grandes incentivadoras. “A diretora do meu curso de supletivo me chamou para fazer uma reforma na sala de sua casa, mas ainda não me sinto pronta”, disse. Ela já fez cursos de ladrilheiro, pedreiro e estucador e está preparando sua casa para ser uma espécie de vitrine do seu trabalho. “Meu objetivo é trabalhar com isso, mas como ainda não me sinto pronta estou fazendo coisas em casa para poder mostrar o meu trabalho”, concluiu Cátia Cilene.

Carta da Indústria – Março de 2000