Solução na Mídia

Em nome da inclusão

Cresce o número de empresas que estão contratando portadores de deficiência.

É lei: as empresas são obrigadas, desde 1991, a ter uma cota de vagas – que varia de 2% a 5% do total de funcionários – para portadores de deficiência. E, diante de uma fiscalização que tem se mostrado mais atuante, as companhias estão deixando o preconceito de lado e criando mais oportunidades de trabalho para esses profissionais. Principalmente nas áreas administrativas, de atendimento ao cliente e operacionais.

No entanto, nem tudo é simples. Segundo as companhias, existe um problema, que é comum a todo o mercado brasileiro: falta de qualificação. Neste sentido, entidades como o Instituto Brasileiro de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (IBDD) estão desenvolvendo projetos de capacitação. Ano passado, o IBDD formou 732 profissionais, contra 246 em 2002.

Mas as empresas também estão se mexendo. A Merck,por exemplo, tem nove profissionais portadores de deficiência. Em dois anos, quer ter 25, o equivalente a 5% de seu quadro de pessoal. Para isso, fechou parceria com o IBDD e hoje patrocina a capacitação de 30 profissionais.

    - Quando há recrutamento interno, checamos se é possível, ou interessante para a carreira, transferir portadores de deficiência para outra área – diz Renato Senna, diretor de RH da indústria de remédios.

Segundo Moema Aquino, diretora da Solução Recursos Humanos, não há como negar o preconceito. No entanto, as empresas começam a permitir que as vagas sejam disputadas em iguais condições por quem tem e não tem alguma deficiência:

    - Até porque as empresas querem é resultados.

Instituições têm diferentes cursos especializados

Para a psicóloga Márcia Benevides, coordenadora do Centro de Profissionalização do IBDD, as instituições de ensino não estão preparadas para receber alunos portadores de deficiência.Isso,por conseqüência, restringe o mercado de trabalho. No caso dela, que é deficiente visual, foi preciso gravar as aulas da faculdade para, em casa, passar o aprendizado para o braile. Uma saída, diz, é recorrer a entidades que têm estrutura para receber esses profissionais.

No IBDD, há cursos profissionalizantes em informática, telemarketing e serviços administrativos. Todos feitos em parceria como Senac. A Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), por sua vez, oferece cursos de inglês, espanhol, informática e montagem de computador. Já a Associação Pestalozzi, de Niterói, tem um processo de educação profissional, que prepara o portador de deficiência no que se refere à apresentação pessoal e relacionamento interpessoal, e dá qualificação em áreas como serviços gerais, cozinha, jardinagem e artesanato. Em geral, as instituições também ajudam o profissional a se colocar no mercado de trabalho.

Qualificação foi o que levou Rogério Soares, que ficou paraplégico após um acidente de carro, a mudar de área na Shell. Ele entrou para trabalhar na biblioteca da empresa graças à formação (biblioteconomia). Mas, como fez pós-graduação em gestão estratégica, mudou para a área comercial:

    - Tenho certeza de que para isso ocorrer apresentei bom desempenho. Mas, além disso, a empresa estava preparada para me receber, tanto no que se refere à estrutura física como à postura dos colegas.

Segundo Claudia Werneck, diretora da ONG Escola de Gente, no entanto, ainda há preconceito a vencer:

    - Muitas vezes a empresa olha para a deficiência e se pergunta: onde esse problema pode ser colocado aqui dentro? Só que a empresa que adota uma política de inclusão tende a ter um ambiente mais criativo, reafirma seus valores interna e externamente e testa os limites da ética dos funcionários em geral. Até por isso, acho, cresce o número de empresas que nos procuram para conhecer a legislação e fazer uma seleção responsável.

Fabiana Ribeiro

01/08/2004

Boa Chance – O Globo