Solução na Mídia

Faltam Talentos no mundo

Em todo o mundo, 40% dos empregadores encontram dificuldades para contratar profissionais com a qualificação e as competências que consideram adequadas. É o que aponta a pesquisa “Falta de talentos”, realizada pela multinacional de RH Manpower Inc., no primeiro trimestre do ano. Foram entrevistados 33 mil empregadores em 23 países.

A pesquisa relativa ao Brasil, que não foi incluído nesta primeira fase do estudo, estará pronta em meados deste ano. Mas, segundo os diretores de Marketing da Manpower para a América Latina e para o Brasil, Alejandro Durruty e Marcello Gimenez, respectivamente, entrevistas preliminares com empregadores brasileiros mostram que as conclusões serão semelhantes.

Luciana Calaza

Primeiro Mundo importa pessoal

— Nos últimos 40 anos, um milhão de pessoas com formação universitária migrou de países da América do Sul, Central e Caribe para outros de economias mais avançadas. Ou seja, exportamos muitos talentos e ficamos com escassez de mão-de-obra qualificada — explica Durruty, destacando ainda que, na América Latina, 25% dos jovens entre 15 e 29 anos estão fora do sistema educativo e, por conseqüência, do mercado formal de trabalho. — Sobra ainda menos gente.

Já nos países mais desenvolvidos, acrescenta Durruty, é o envelhecimento da população que determina a escassez de profissionais com perfis adequados:

— Os trabalhadores estão se aposentando, e as taxas de nascimento são inferiores ou iguais às de mortalidade. E a imigração não é suficiente para suprir a demanda por mão-de-obra. Para se ter uma idéia, se a Itália quiser manter sua população economicamente ativa atual no ano de 2050, terá que atrair 350 mil imigrantes/ano. Ou, postergar a aposentadoria de seus cidadãos.

A pesquisa apontou as dez principais categorias em que os empregadores pesquisados encontram mais dificuldades para recrutar candidatos. Representantes de vendas, engenheiros, executivos, técnicos e operadores estão entre elas.

Para os diretores da Manpower, os profissionais precisam estar constantemente renovando seu conhecimento para preencher os requisitos pedidos pelo mercado. É o que tem feito o gerente Ricardo Amaral, da Hughes, multinacional americana de soluções via satélite. Amaral, que é da área de tecnologia da informação, agora pertence à de executivos — ambas no ranking das que não têm pessoal qualificado em número suficiente no mundo. Engenheiro elétrico com especialização em sistemas de comunicação, Amaral é pós-graduado em programação de computador, fez MBA em Marketing e hoje cursa mestrado de administração:

— Em telecomunicações, é preciso se atualizar sempre. E, agora, estou orientando minha carreira para a governança corporativa.

De uma área em que muitos trabalham sem capacitação, e que faz parte do ranking, Fábio Freire, motorista da Turismo Três Amigos na Riopol, procura fazer o mesmo que Amaral — se qualificar:

— Muito antes de, ano passado, o Detran passar a cobrar da categoria capacitação de 56 horas dada por Sest/Senat ou Setrab, eu tinha esse e outros cursos, como direção defensiva, combate a incêndio e primeiros socorros.

Índice brasileiro tende a ser ainda mais alto

No Brasil, o índice de empregadores com dificuldades para recrutar pessoal deve ficar acima da média mundial de 40%, avalia a especialista Moema de Aquino, diretora da Solução Recursos Humanos. Para ela, faltam investimentos das empresas brasileiras em desenvolvimento de talentos.

— Os empregadores já querem encontrar um profissional pronto, pois é mais barato para eles. O problema é que não tem. No Brasil, isso está muito ligado ao ensino, que é deficiente. Temos problemas de formação de nossos próprios professores. E os melhores cursos são caros, são para poucos privilegiados.

Universidades corporativas são uma saída, diz consultora

Os executivos da Manpower se dizem preocupados com as conseqüências da escassez de talentos para a sociedade a médio prazo. Segundo eles, em dez anos, muitas empresas vão fracassar por não saberem planejar, com antecipação, uma saída para a questão da escassez de talentos.

— É preciso encarar o treinamento como uma ferramenta primordial para o negócio e não como um agrado para os funcionários — acredita o diretor de Marketing da Manpower Brasil, Marcello Gimenez.

Moema observa que, cada vez mais, as companhias investem em tecnologia, mas esquecem que é necessário ter gente qualificada para gerir essa tecnologia.

— Uma solução é a expansão das universidades corporativas. Mas muitos empregadores têm medo de investir, e depois perder o funcionário para outra empresa. Para isso, eles têm que investir também na retenção de talentos.

Para a consultora, os técnicos de operações, operadores de máquinas e os operários qualificados (como carpinteiros, marceneiros e encanadores) — que aparecem no terceiro, quarto e quinto lugares da pesquisa, respectivamente — dependem ainda mais de investimento em treinamento por parte dos empregadores:

— Algumas poucas empresas estão começando a perceber que metade de sua força de trabalho nem é alfabetizada corretamente, isto é, lê, mas não sabe interpretar os textos. E isso faz com que, na introdução de novas tecnologias no processo da empresa, esse pessoal tenha uma dificuldade muito grande para assimilar o aprendizado.

Representante de vendas é problema para nove países

Nove dos 23 países pesquisados apontaram a categoria de representante de vendas como a mais difícil para se recrutar profissionais que tenham o perfil adequado. Entre eles, estão Estados Unidos, Canadá, México e Japão. O diretor da Manpower Brasil destaca que esse profissional precisa ser um consultor e, por isso, deve ter especialização na área em que atua:

— Ele precisa conhecer profundamente o produto, o serviço ou a idéia que está vendendo. Isto quer dizer conhecer as características, custos e processo logístico. O mercado de telefonia celular é um bom exemplo: há dez anos, qualquer um poderia vender um aparelho. Hoje em dia, é preciso praticamente ser um expert em telecomunicações.

Depois de trabalhar 35 anos na área, oito deles como representante e os demais como gerente de vendas da indústria farmacêutica, Paulo César Lauria confirma a dificuldade para recrutar mão-de-obra com qualificação na área. Por isso, acaba de abrir uma empresa especializada em representação e consultoria em vendas, a RD Con. Ele diz que o mercado mudou e atualmente exige formação superior, pós-graduação e inglês:

— Os representantes de vendas têm salários bem acima da média. E como não existe faculdade específica para formar esse profissional, o ideal é que ele busque cursos de pós-graduação em marketing e na área em que atua — diz Lauria, que é formado em economia, fez pós-graduação em marketing e participou de cursos da área de farmácia.

Com as novas tecnologias, falta de talentos se agrava

Jacqueline Resch, diretora da Resch Recursos Humanos, acredita que a categoria de engenheiro também vai ter destaque no ranking brasileiro, devido ao surgimento de novos mercados — caso dos setores de petróleo e gás e de tecnologia de informação:

Uma prova disso é o Prominp ( Programa de Mobilização da Indústria de Petróleo de Gás ), que atua na formação de mão-de-obra para todos os níveis do setor de petróleo, já que poucos profissionais conhecem os processos.

Luciana Calaza
Boa Chance – O Globo
14 de maio de 2006.