Solução na Mídia

Forma de saber como o candidato realmente é

Descobrir o que vai por dentro dos profissionais. Esse é, segundo consultores, um dos principais objetivos das ciladas em dinâmicas de grupo e entrevista. Ou seja, elas não são usadas apenas para verificar como os candidatos agem sob pressão e diante de imprevistos. Também é o meio aplicado para identificar como é o futuro dono da vaga oferecida pela empresa. Se é, por exemplo, arrogante, sério, extrovertido, tímido ou nervoso.

Nas entrevistas, perguntas sobre a vida pessoal

— Nem tudo está escrito nos currículos, bem como nem tudo o candidato mostra durante uma entrevista. Quando o entrevistador pergunta uma coisa inesperada, há um momento de surpresa, em que o candidato precisa naturalmente se expor mais. E, então, é possível saber se ele tem o perfil comportamental que a empresa tanto busca — explica Moema Aquino, diretora da Solução Recursos Humanos.

O que se percebe, portanto, é que apesar da importância do currículo, as características pessoais começam a ser cada vez mais valorizadas.

— O profissional precisa estar preparado porque ele não será questionado apenas sobre sua vida profissional. Numa entrevista, haverá perguntas sobre esportes, hobbies e leituras. E o importante não é impressionar o entrevistador, mas sim, ressalto, ser sincero. A mentira tem pernas curtas — afirma Irene Azevedo, diretora da Mariaca & Associates.

Moema explica que a regra também vale para as dinâmicas de grupo. Só que, acrescenta, a diferença é que o profissional sabe que ali haverá surpresas. Mas, continua, o maior erro dos candidatos é que eles ficam preocupados em mostrar os resultados e não em como chegar a eles.

— Num jogo, por exemplo, em que um candidato fica na roda e é sabatinado pelos seus concorrentes, é possível notar sua reação. Nessa atividade, pode-se perguntar de tudo. E podemos ver como ele reage e como é na essência. As pessoas esquecem que estão numa dinâmica e se mostram. Quando isso acontece, alcançamos nosso objetivo — afirma a consultora.

Paulo Roberto Filho, consultor da Adecco, diz que as armadilhas são dadas pelas deixas que o próprio candidato lança durante a entrevista:

— Os entrevistadores aproveitam alguma mancada ou informação dita pela metade e insistem em determinado assunto. Ou acontece ainda quando o profissional dá uma informação e o entrevistador tem conhecimentos suficientes para checar sua opinião.

Exercícios para avaliar e não para pregar uma peça

Rita Ângela, gerente regional do Grupo Foco, porém, é contra o uso do termo pegadinha. Isso porque, diz, as avaliações servem para verificar como os candidatos se comportam sob pressão e não têm qualquer intenção de pregar uma peça nos profissionais:

— Entrevistas e dinâmicas de grupo servem para identificar traços de liderança, estilos de gestão, nível de competitividade e de flexibilidade e capacidade de se relacionar em equipe. O que se pretende ao criar exercícios é que o profissional aja da maneira mais natural possível. E só.

Na boca do lobo

Não bastassem provas, entrevistas e dinâmicas de grupo, agora os processos de seleção podem incluir pegadinhas. Ou melhor, armadilhas dentro de cada uma dessas etapas que fazem bons profissionais tropeçarem e, por conseqüência, perderem a vaga. Elas vêm em forma de perguntas capciosas sobre defeitos e qualidades, chá de cadeira na recepção, questionamentos sobre uma notícia ou insinuações sobre a ética do ex-chefe. Tudo isso num jogo de palavras que leva muita gente a ficar nervosa, confusa e, o que é pior, mentir.

Atenção especial a entrevista que mais parece bate-papo

É que colocar os profissionais em saia justa é a maneira de alguns entrevistadores verificarem características que não estão no currículo. E que nem eles próprios diriam, explica Moema Aquino, diretora da Solução Recursos Humanos. O que está em julgamento são suas habilidades comportamentais — tais como flexibilidade, liderança e capacidade para lidar com imprevistos, frustrações e opiniões divergentes. Para isso, continua, é preciso envolvê-lo — e até mesmo confundi-lo — para que seja possível saber como este profissional age sob pressão, lida com ansiedade e nervosismo e reage diante de uma situação inesperada.

— Há entrevistadores que deixam o candidato bem à vontade e, assim, conduzem a entrevista como se fosse um bate-papo. Descontraído, o profissional tende a se expor bem mais — explica Moema.

Paulo Roberto Filho, consultor da Adecco, acrescenta que a grande armadilha se dá quando o candidato é induzido a dar uma ou outra resposta. Seja de caráter profissional ou mesmo pessoal:

— São perguntas maliciosas que, muitas vezes, até prejudicam a interação. Por isso, os candidatos devem estar atentos na hora da entrevista e não devem se deixar levar pela opinião do entrevistador.

Também será preciso estar preparado para responder a perguntas como “quais são seus defeitos?”; “que livro você está lendo?”, “por que você quer trabalhar conosco?”; e “o que você espera de sua carreira?”. Fácil? Pode ser. Mas o questionamento pode recair sobre temas como religião e sexualidade — o que, para alguns, sempre acaba em polêmica. Ou ainda sobre a altura da Torre Eiffel ou quantas bolas de totó cabem numa piscina.

— O que importa, muitas vezes, não é a resposta certa ou a errada. Mas como o profissional vai responder às questões. Se estará sério, nervoso, tenso ou tranqüilo — explica Moema.

A melhor saída para não cair em pegadinhas é preparar-se para as entrevistas e ser sempre sincero, diz Irene Azevedo, diretora da Mariaca & Associates no Rio:

— Como existem entrevistadores que chegam a estressar o candidato e a provocar discussões, o ideal é o profissional se proteger. Deve buscar informações sobre a empresa em que pretende trabalhar e saber tudo que diz o seu currículo. E, principalmente, não cair em contradição.

Nas dinâmicas de grupo, o mais importante é agir em equipe

Moema acrescenta que nas dinâmicas de grupo os profissionais ficam preocupadíssimos em se destacar dos demais e que nem sempre isto é o melhor a fazer. O ideal é agir em grupo e pensar na equipe:

— A dinâmica é uma grande pegadinha, que avalia todas as reações do candidato. O objetivo é testar reações. Saber até que ponto a pessoa consegue controlar-se.

Diante de tantas pressões, Roberto Andrade dos Santos, auditor sênior da Ernst & Young, reconhece que é inevitável ficar tenso. No processo de seleção para a consultoria, ele foi levado a defender uma idéia e, em seguida, a defender justamente o contrário. Mas Santos não caiu nas armadilhas e foi posteriormente aprovado:

— Notei que o que estava em teste era minha reação. Não me deixei levar pelo nervosismo.

O que pode (ou não) acontecer

EM ENTREVISTAS

ESPERA: Chegar 15 minutos antes da entrevista é o ideal. E o candidato não deve ficar nervoso se tiver de esperar meia hora. Ou seja, é bom manter a calma e ser educado.

PERGUNTAS: Não existem respostas certas. O que não se deve fazer é mentir. O entrevistador pode, por exemplo, comentar notícias, jogar informações erradas e pedir opiniões. Só discuta o tema quando entender do assunto.

EMPRESA: O entrevistador pode levar o candidato a falar mal da empresa anterior ou do chefe. É preciso ficar atento e evitar comentários negativos.

DEFEITO: Questionado sobre seus defeitos, o profissional deve evitar dizer que é perfeccionista ou mesmo detalhista. Denota falsa humildade, já que, na rotina do trabalho, essas características costumam não ser defeito.

VAIVÉM: Atenção à condução de entrevistas: há quem tente confundir o candidato para ver se ele se contradiz.

EM DINÂMICAS DE GRUPO

JOGO: O candidato pode ser levado a situações de pressão. Vale mostra que se sabe lidar com situações adversas.

FRUSTRAÇÃO: O instrutor pede para o candidato desenvolver um projeto. Mais tarde, avisa que ele não será mais apresentado. A idéia é checar a reação diante de uma frustração.

ATITUDE: Há exercícios para testar a capacidade de questionamento do candidato. Caso dos jogos em que ele tem de imitar animais ou outras atividades que o deixam ridículo.

Jornal O Globo
27/04/2003