Solução na Mídia

Hobby levado a sério

Não ter patrão, fazer seu próprio horário e, mais importante: ganhar dinheiro como que era apenas um passatempo.

Quando era bancária, Ana Lúcia Novaes de Assis, 34 anos,olhava pela janela do 37° andar do prédio espelhado da agência do Banco do Brasil, onde trabalhava, em pleno coração financeiro do Rio de Janeiro, e sonhava com outros horizontes. Depois de 13 anos batendo ponto no banco, abandonou o emprego seguro em junho do ano passado para investir num sonho que havia começado cinco anos antes, quando ela passou a fazer objetos de porcelana. O hobby foi ganhando espaço em sua vida, ocupando fins de semana e depois os dias normais também. Ana Lúcia começou a vender para amigos canecas, pratos, vasos e tudo o mais que sua criatividade permitisse. Passou a expor em feiras, como a Babilônia Feira Hype, e tratou de conciliar o emprego com suas vendas de porcelana.

“Eu resolvi arriscar tudo no ano passado, quando surgiu a oportunidade de alugar uma loja”, conta Ana Lúcia, que montou o Ana Lua Ateliê, em Ipanema, zona sul do Rio. Numa loja supercolorida e cheirosa, a artista plástica e empresária não se arrepende da troca: ela já expandiu seu negócio para um quiosque no centro da cidade e tem seis pessoas sob suas ordens. “Medo sempre dá. Mas hoje, apesar de aquilo que era apenas prazer ter virado trabalho, tenho uma qualidade de vida muito melhor,” conta Ana Lúcia.

Não ter patrão, fazer seu próprio horário e ter liberdade de ir e vir são apontadas pela artista como as principais vantagens. Até o momento, ela tem seguido à risca a cartilha dos empreendedores, ao investir no negócio só depois de ter certeza de que era isso que queria. O consultor de projetos comportamentais Everaldo Lessa é taxativo: aplicar o capital em um investimento às escuras, em geral, não dá certo. “Caso contrário, o hobby passa a ser sofrimento”, diz o consultor.

Planejamento passo a passo

A estilista Rose Mary Oliveira, 35 anos, ainda não deu o pulo do gato como Ana Lúcia, mas já engatinha os primeiros passos. Ela trabalhou oito anos para duas grifes conhecidas do Rio, a Cantão e a Redley, mas estava decepcionada com o mercado e com o baixo salário. Junto com uma amiga, Rose começou a fazer bolsas de tecido com bordado e de patchwork por pura diversão. Os amigos também foram fundamentais ao comprar suas criações. Tanto que ela montou em sua casa uma miniinfra-estrutura para dar conta do recado. O número de bolsas vendidas por mês passou de 40, em setembro do ano passado, para 150, atualmente.

Rose ensina o caminho das pedras: “Tudo tem de ser planejado passo a passo e estou aprendendo a agregar o lado empresarial à arte de criar.” Moema Aquino, diretora da Solução Recursos Humanos, bate palmas para pessoas como Rose e Ana Lúcia, que têm coragem de ousar. Mas alerta para algumas armadilhas: é preciso ter horário, disciplina, responsabilidade, e saber que todos os dias tem de se dedicar ao novo trabalho, que não é mais uma atividade para as horas de folga. “Há maior chance de sucesso quando se faz o que se gosta”, afirma a consultora.

Não é fácil, mas muitos conseguem. Com apenas 22 anos, o alpinista carioca Gustavo Lenin leva a vida que sempre quis: nas alturas. Há muito tempo ele curte os fins de semana escalando morros como o do Pão de Açúcar e o do Corcovado. Agora que começou a trabalhar, ele continua usando as técnicas de montanhismo. Gustavo é funcionário da Civil máster, uma empresa de engenharia que presta serviços em altura. Quase diariamente, está dependurado em cordas para fazer limpeza e reparo em prédios de luxo. “No lazer, é muito mais adrenalina, me arrisco mais”, diz ele. “No trabalho, tudo é bem calculado e estudado, porque você não pode colocar a vida dos outros em risco. Mas, mesmo assim, continua sendo uma bela diversão.”

“HÁ MUITO MAIS POSSIBILIDADES DE SUCESSO QUANDO SE FAZ O QUE SE GOSTA”.

Moema Aquino, consultora de RH

Revista TUDO o que eu quero - Carreira

Por Ana Cristina Campos