Solução na Mídia

Idade pesa na hora de contratar, mas já não é tão decisiva quanto era no passado

CONSELHOS PARA TER BOA PARTICIPAÇÃO NUMA ENTREVISTA

Preconceito diminui e capacitação é o que as empresas mais levam em conta.

Roberto Feliciano, Vitalina Pereira das Neves e João Ribeiro tinham três coisas em comum até há alguns meses: o desemprego, o fato de já terem passado dos 35 anos e uma ficha preenchida na Solução Recursos Humanos. Hoje, os três estão empregados:

    - Na maioria das vezes, o preconceito contra a contratação de pessoas mais velhas é velado, mas há casos em que ele aparece claramente – diz Vitalina, de 46 anos, e hoje telefonista da Light. – Recentemente, fui a uma empresa com o anúncio que oferecia uma vaga para telefonista. Diante de candidatas de 20e poucos anos, a recepcionista me perguntou o que eu queria. A nossa sorte é que alguns empresários já sabem que nós, que passamos dos 40, podemos ser tão, ou mais, produtivos do que o sangue novo que está entrando no mercado. Eles dão um sinal de que, aos poucos, o preconceito está diminuindo – afirma Vitalina.

Já o letrista Luiz Carlos da Costa Ribeiro, 41 anos, não gosta nem de lembrar do início de 1994, quando foi demitido. Trabalhando desde o mês passado na confecção de cartazes da filial São João de Meriti da Sendas, ele acredita que hoje a idade ainda pesa na contratação e na demissão de mão-de-obra.

    - Só que a idade não é o único fator analisado – afirma.

Voltando no tempo, Ribeiro lembra como foi difícil a luta por um emprego fixo. Ele trabalhou durante muito tempo como free lance e, por isso, viu seu padrão de vida cair cerca de 20%. Seu currículo acabou parando em dezenas de empresas.

    - Sei que não foi só por causa da minha idade que tive dificuldade de encontrar um emprego. Há poucas vagas no mercado. Mas sei que ela pesou. Quando dois profissionais têm a mesma qualificação, provavelmente, o mais jovem será o escolhido. Há uma falsa idéia de que eles são sempre mais produtivos. Quem é jovem acaba ganhando um salário mais baixo, o que é vantajoso para o empresário – analisa Ribeiro.

Feliz por ter conseguido se recolocar no mercado, ele não se ilude: sabe que terá que se reciclar para se manter no emprego, e já está fazendo por onde:

    - Estou colocando a minha vida em ordem, principalmente, pagando dívidas. Não quero nem pensar na possibilidade de voltar a ficar desempregado. Sei que a empresa quer funcionários qualificados e atualizados, e, por isso mesmo, já comecei ame reciclar. Atualmente, estou tendo aulas de computação gráfica.

A psicóloga Mônica Baptista, chefe do setor de recrutamento e seleção da Sendas, acredita que o mercado atual valoriza a capacitação do funcionário, mas não desconsidera a sua idade:

    - Felizmente, algumas empresas já passaram a considerar apenas o currículo da pessoa.

Recebendo cerca de duas mil pessoas procurando emprego, por mês – atualmente, as inscrições estão fechadas – Mônica diz que, em cada dez, dois têm entre 35 e 45 anos:

    - A maioria conta experiências que comprovam a discriminação etária, e 80% são homens. Na Sendas, muitos deles acabam sendo aproveitados para serviços operacionais, como balconistas, operadores de caixa. Para algumas funções, como vigias, eles são especialmente eficientes, por terem mais responsabilidade.

Na Solução, a diretora comercial Moema Aquino conta que há cerca de 150 empresas cadastradas na empresa:

    - Nenhuma delas tem preconceito contra pessoas mais velhas. Sei que 20 costumam aproveitar mais os trintões e quarentões. Felizmente, são grandes empresas, com muitas vagas abertas.

Uma pesquisa da Case Consultores, empresa do Grupo Catho, baseada no estudo de 1.529 contratações de executivos entre 1990 e 1994, constatou que a faixa de 36 a 40 anos teve o maior percentual de contratações – 29,98%, contra 28,61% e 20,53% das faixas de 31 a 35 anos e de 41 a 45 anos, respectivamente.

O Globo

21/04/1996