Solução na Mídia

Mudanças

Consultores alertam para necessidade de vencer as resistências comuns às transformações

Quem está na casa dos 40 anos lembra de um inseticida chamado Flit, que a Esso vendia desde 1920. Por muito tempo, para matar mosquitos, bombeou-se veneno neles. No início dos anos 60, surgiu o aerosol. A tecnologia foi oferecida à multinacional, que não acreditou no sucesso do produto. E não quis mudar. Resultado: a Rhodia, que aceitou testar a idéia, tornou seu Rodasol líder de vendas, enquanto a bombinha de Flit desaparecia do mercado. Mais tarde, foi a Rhodia que resistiu às novidades e perdeu a vez para o SBP, da Bayer. Moral da história: num mundo em que a tecnologia avança cada vez mais rapidamente, dizem estudiosos, é perda de tempo e espaço ter medo de mudar, de inovar.

- Estima-se que, dentro de dez anos, só estaremos usando 20% do conhecimento que temos hoje. O avanço da tecnologia terá deixado o resto obsoleto, ultrapassado - diz o coordenador do Centro de Referência em Inteligência Empresarial (Crie) da Coppe/UFRJ, Marcos Cavalcanti, citando um estudo do ex-ministro da Educação português Roberto Carneiro, que realizou uma pesquisa sobre mudanças.

- Diante das mudanças, é preciso se atualizar. E a atualização depende de o usuário acreditar que pode aprender algo facilmente. A defasagem tecnológica é provocada mais por barreiras psicológicas do que técnicas - garante o consultor Max Gehringer.

O fato é que essa nova maneira de pensar influencia a vida cotidiana e os negócios. Tornou-se urgente ter raciocínio multidisciplinar e obter informações não somente por livros e aulas, mas pela rede de contatos. Estudiosos como Marcos Cavalcanti e o jornalista Rosental Calmon Alves, professor da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, são unânimes em dizer que vem por aí uma revolução que só tem paralelo na invenção da imprensa por Gutemberg, em 1445. Para Alves, os novos tempos já chegaram.

- A primeira coisa que um empregador analisa, hoje, num processo de seleção, é se o candidato tem alguma resistência à mudança. Sobreviverá o trabalhador que souber antever como será sua profissão no futuro próximo - afirma Alves, acrescentando que ficarão empregados os que tiverem capacidade de adaptação. - A tecnologia já transformou a forma de comprar passagens aéreas, por exemplo. E isso mudou a aviação: a burocracia sumiu e houve redução no número de postos de trabalho.

Para o professor, é o uso do celular que indica a chegada da nova cultura: - E-mail é coisa de velho. Jovem, nos Estados Unidos, usa SMS (mensagens de texto). E é incrível pensar que o meu celular, hoje, tem a configuração do computador que tive há cinco anos atrás. E as pessoas já tratam uma evolução gigantesca como essa como algo corriqueiro.

Se as novidades tecnológicas estão chegando à sua empresa ou profissão, é bem provável que a concorrência já saiba disso. Por isso, a consultora Moema Aquino, da Solução Recursos Humanos, alerta para a necessidade de constante participação em feiras, congressos, palestras, conselhos e associações:

- Não dá para se manter numa espécie de bolha, alienado a respeito do que acontece no mercado. Às vezes, a tecnologia demora a chegar nas empresas menores, o que não impede que as grandes já a utilizem. É importante saber disso.

Isso, segundo Moema, permite que o profissional entenda a importância dos treinamentos oferecidos a ele.
- Assim, quando o setor de comunicação interna disser ao funcionário que há uma vaga para ele num curso, ele entenderá a importância do assunto, em vez de reclamar. Mais que isso, pode até tomar a dianteira e sugerir que a empresa programe palestras sobre o que está por vir.

Atualizar-se é uma prática diária, por exemplo, para o empresário Eliezer Batista, que foi ministro de João Goulart, viabilizou a construção da mina de Carajás durante seu período na presidência da Companhia Vale do Rio Doce e hoje é conselheiro do Grupo Monteiro Aranha e da Firjan. Aos 82 anos, ele não sente a menor saudade de tempos passados. Um exame recente a que se submeteu no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, indicou atividade mental de um homem de 40 anos.

- Arquivos eletrônicos, celulares e videoconferências facilitaram incrivelmente as tomadas de decisão nas empresas. Não dá para ficar parado. Certa vez, um italiano amigo me disse em Verona que só se sentiria velho cinco minutos antes de morrer. Concordo plenamente. O importante é seu estado mental - afirma, acrescentando que a biotecnologia é a nova fronteira a ser ultrapassada. - Daqui a alguns anos, não haverá mais remédios, as doenças serão contornadas pelos genes. Isto sim, será sensacional.

Até porque, segundo Gehringer, se um futurólogo tivesse listado a quantidade de coisas que estariam disponíveis em 2006, muita gente diria que seria impossível conviver com tantas novidades:
- Temos a perspectiva de que, em dez anos, usaremos produtos que nem estão nos nossos sonhos.
O que vem por aí
Você não vai mais digitar o computador: falará com ele
Enfim, o uso do celular será liberado durante os vôos
Já no shopping center, pelo celular, você vai saber em que loja encontrar tal produto. A medida está em teste no Aeroporto de Frankfurt
Exames por ultra-som e raios X poderão ser feitos de casa
No Rio, já se constrói prédios em que as "chaves de casa" são as impressões digitais
Programas de computador farão traduções simultâneas: uma pessoa falará mandarim, mas a outra, na mesma hora, escutará, português
"A defasagem tecnológica é provocada mais por barreiras psicológicas do que técnicas."
MAX GEHRINGER
Consultor de empresas
"Sobreviverá o trabalhador que souber antever como será sua profissão no futuro próximo."
ROSENTAL CALMON ALVES
Prof. da Universidade do Texas


Visão global do mercado é uma das exigências

Segundo estudiosos, atualmente profissionais precisam adquirir informações de diferentes áreas disciplinares

Para o professor Marcos Cavalcanti, da Coppe, a idéia de que cada profissional pode garantir o emprego só com o conhecimento de sua área está com os dias contados. Quanto mais versátil for, melhor. Os que quiserem avançar na carreira terão que conhecer outros mercados e fazer o máximo possível de correlações entre o seu dia-a-dia e outras disciplinas.

Cavalcanti faz uma ressalva: como é impossível saber tudo, o ideal é procurar uma bibliografia enxuta, com o que há de mais significativo em cada campo de estudo. O segredo para chegar às melhores publicações é formar uma eficiente rede de contatos multidisciplinares que indique, na propaganda boca-a-boca, as melhores fontes de informação:

- Quem produz software terá de conhecer os modelos de negócios em que eles serão vendidos. Um biólogo, por sua vez, terá que saber os impactos sociais de seus estudos.

Rede de especialistas é que produzirá conhecimento

Para Cavalcanti, essas trocas de conhecimento vão produzir uma inteligência coletiva em pouco tempo, da qual os melhores profissionais não podem ficar alheios:
- O saber será produzido por redes de especialistas. Por exemplo, posso apostar que a vacina contra a Aids será descoberta por várias pessoas, num esforço conjunto. É o caso oposto ao de Sabin, que encontrou uma das vacinas para a poliomielite sozinho. A informação circula muito rapidamente. Seria inviável levar um crédito como este hoje em dia.

Os poderes da internet e da comunicação também mudarão a rotina das empresas, na opinião do especialista:
- Há até pouco tempo, alguém determinava o que uma ou muitas outras pessoas iriam ler. Essa era a lógica de Gutemberg, que prevaleceu há até pouco tempo. Pela internet, todos falam com todos ao mesmo tempo. É preciso saber se destacar na multidão.

O especialista lembra que a empresa que consegue esta façanha, como o Google, vale bilhões. As que ficam para trás passam a valer ninharias. E, nesta crescente evolução tecnológica, a biologia passa a ter lugar de destaque, principalmente com as pesquisas sobre células-tronco e transgênicos. Com eles, vamos prevenir doenças e mudaremos a nossa alimentação.
- Comeremos feijão que, em sua composição química, já vem com defesas para males da saúde - diz Cavalcanti.

Um mundo de ficção científica está por vir. Paulo Sérgio Diniz, coordenador do Laboratório de Processamento de Sinais, também da Coppe/UFRJ, dá uma idéia do que está em estudo. Entre as novidades, o uso de telefone celular nos aviões em pleno vôo, o fim da carteira de identidade e as cirurgias intercontinentais, feitas à distância por médicos que estão em outros países.
Importância do livro se manterá, diz estudioso

O coordenador da Coppe, porém, acredita que existe um comportamento que ficará como está - e que é indispensável: a relação com a leitura.
- As pessoas vão ler páginas numa plataforma digital, mas o hábito da leitura vai permanecer. Só o livro tem o tempo certo da reflexão. É diferente da notícia.

Flávia Rodrigues
Boa Chance – O Globo
03/09/2006