Solução na Mídia

Mudar de profissão? Você pode!

Pesquisa revela que apenas 1 em cada 4 pessoas está feliz com o trabalho. Para a maioria, recomeçar pode ser o melhor caminho.

Os primeiros meses de 2001 têm causado frio na barriga da paulista Ivonete Custódio de Lima. Aos 36 anos, ela está pronta para um dos maiores desafios de sua vida: deixar para trás dez anos de experiência como esteticista para atuar como psicóloga, profissão que resolveu seguir aos 30 anos. Depois de cinco anos de faculdade, em dezembro ela conquistou o diploma. “Chegou a hora de colocarem prática o que parecia apenas um sonho”, diz ela.

O que Ivonete está fazendo – mudar de profissão – é o sonho de 18% dos trabalhadores brasileiros, como revelou uma pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Iespe) e da MCI Marketing, divulgada recentemente. Somando os que não atuam em áreas para as quais se prepararam (28%) e os que não sabem se gostam do que fazem (29%), chega-se a uma conclusão assustadora: apenas um e cada quatro trabalhadores está na profissão que sempre quis.

Psicólogos e outros especialistas no assunto acreditam que iniciar nova carreira pode ser a melhor maneira de evitar a frustração que normalmente atinge quem descobre que o problema não está na empresa, no salário nem nos colegas de trabalho, mas na própria profissão. Pessoas entre 25 e 35 anos, descontentes com o trabalho que fazem, são muito comuns no consultório da psicóloga Sandra Bertelli, especialista em reorientação vocacional e consultora do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) de São Paulo. Segundo ela, o erro na escolha da profissão pode ter vários motivos.

Quem sai da escola e entra direto na faculdade, muitas vezes, não está preparado para tomar uma decisão que terá conseqüências para o resto da vida. “A pessoa ainda não se conhece o suficiente para saber sua verdadeira vocação ou não é capaz de avaliar todos os aspectos da profissão escolhida”, diz a psicóloga Sandra. Ao optar, por exemplo, pela carreira de dentista, alguém muito jovem pode não prever que, por gostar muito do convívio em grupo, sofrerá de solidão ao passar os dias num consultório, com pacientes impedidos de conversar durante o tratamento, por causa da boca aberta.

Mas o que fazer quando se descobre isso mais tarde na vida, depois de anos de dedicação à profissão errada? A psicóloga Sandra Bertelli e a consultora em recursos humanos carioca Moema Aquino, que também já orientou diversas pessoas insatisfeitas com suas profissões, são categóricas: se a pessoa tem certeza disso, se não se trata simplesmente de um problema no atual emprego e se ela acredita que encontrou mesmo a sua verdadeira vocação, deve mudar de profissão. “Quem tenta empurrar o problema com a barriga”, avisa Sandra, “torna-se um candidato à chamada ‘crise da meia-idade’, que ocorre por voltados 35 anos – a pessoa perde a motivação para trabalhar e, em casos mais graves, até para viver.”

As duas concordam também num outro ponto. A mudança, em casos assim, não pode ser feita de uma hora para outra. Ao contrário, deve ser muito bem planejada e pode levar anos até ser concluída. “Não se deve simplesmente chutar o balde”, adverte Moema Aquino.”É como mudar de casa: você primeiro busca o lugar ideal, depois leva os móveis e por último faz a mudança.” Por essa analogia, no fim do ano passado, a esteticista Ivonete de Lima levou os móveis para sua casa nova, ao concluir a faculdade de psicologia. Falta agora a mudança propriamente dita. Deixar de trabalhar com limpeza e outros tratamentos de pele para atuar como psicóloga. “Quero fazer isso aos poucos”, diz Ivonete. “Por enquanto, pretendo conciliar as duas coisas.”

Uma das maiores dificuldades de quem já se estabeleceu em uma profissão e decide mudar é a diminuição de salário. “Para iniciar em outra área, é preciso estar disposto a ganhar menos”, orienta Sandra Bertelli. Mas a perda, segundo ela, é temporária. “A longo prazo, é provável que a pessoa ganhe até mais, por causa do maior envolvimento com o trabalho”, diz a psicóloga.

A gaúcha Rachel Carneiro Martin, 40 anos, ainda não chegou lá. Há dois anos, ela está trocando a enfermagem, profissão que escolheu ao terminar o segundo grau, pelo direito, carreira que decidiu abraçar depois dos 30, quando já tinha atingido o auge como enfermeira. “A essência da profissão de enfermagem, que é lidar com pessoas doentes, não me atraía mais”, lembra ela, que trabalha há 23anos no Grupo Hospitalar Conceição,em Porto Alegre. Foi aí que Rachel resolveu tornar-se advogada. Fez faculdade e hoje passa as manhãs no hospital e,à tarde, vai para o escritório de advocacia. Por que não mudar de vez? “Financeiramente, não compensa”, diz Rachel. “Ainda vai demorar até conseguir ganhar como direito o que ganho no hospital.”

Quando a mudança não exige novo diploma universitário

Fazer nova faculdade não é a única alternativa para quem acha que está na profissão errada. Em seus contatos como consultora do CIEE, Sandra Bertelli tem notado uma crescente abertura das empresas para a contratação de jovens com formação em áreas diferentes daquela em que vão trabalhar. “Elas não sabem para onde o mercado está indo e muitas vezes preferem contratar alguém com bom nível de conhecimento geral e capacidade de se adaptar a mudanças do que um especialista”,conta ela.

Que tal, por exemplo, uma engenheira química cuidando da criação e do lançamento de novas linhas de empréstimo num banco? É o caso da paulista Mônica Lamussi da Silva, 28 anos. Ou um estudante de engenharia trabalhando com propaganda, como o pernambucano André de Souza, 25? Para ambos, as dúvidas com a carreira escolhida foram resolvidas de maneira quase inesperada.

Na escola era diferente

“Sempre me dei bem na área de exatas”, lembra Mônica. “Mas, quando terminei o segundo grau, não sabia que faculdade fazer.” Como gostava muito de química, escolheu fazer engenharia nesta área.Uma vez formada, descobriu que a realidade da profissão era muito diferente das divertidas aulas no laboratório da escola. Trabalhou três anos numa empresa de consultoria na área, mas estava insatisfeita e resolveu, em 1996, enviar seu currículo para uma vaga que viu no jornal. “Era um desses anúncios procurando jovens formados em diferentes áreas, mas não dizia nem o nome da empresa nem a função”, recorda. Na seleção, ficou sabendo que o emprego era no setor financeiro – o banco BCN, que mais tarde seria comprado pelo Bradesco, procurava aproveitar o raciocínio rápido típico dos engenheiros na função de gerente de agência. Mônica recebeu seis meses de treinamento remunerado e iniciou a nova carreira. “Adoro o que eu faço hoje”, diz.

O pernambucano André de Souza ainda nem se formou – termina no meio do ano a faculdade de engenharia mecânica – e já virou publicitário. A sorte, no caso dele, foi ter dividido o tempo entre o curso e um emprego na filial em Recife da multinacional Unilever. Lá, aos 22anos, assumiu o cargo de coordenador de planejamento, função de lhe mantinha em contato com outros setores, como vendas,marketing e comunicação. “Foi quando comecei aser seduzido pela publicidade”,lembra.

Em1999, uma das principais agências de publicidade de Pernambuco, a Gruponove, fez um concurso para selecionar estagiários. André viu o anúncio no jornal e enxergou ali a sua grande chance. Disputou com713 candidatos uma das nove vagas oferecidas, foi aprovado, trabalhou um ano na agência e, em outubro passado, seu passe foi comprado por outra grande agência local, a HSM. “Gosto muito da engenharia, mas meu caminho é a publicidade”, diz ele.

Por mais difícil que pareça o recomeço, a experiência de quem já passou por esse tipo de mudança mostra que vale a pena arriscar a estabilidade em uma área da qual não se gosta para ir atrás da verdadeira vocação. O salário pode até não ser o mesmo, mas a satisfação de colocar em prática talentos descobertos tardiamente não tem preço. Afinal, quanto vale, por exemplo, o prazer de acordar de bem com a vida numa manhã de segunda-feira?

Demetrius Paparounis
Revista TUDO o que eu quero

Março de 2001