Solução na Mídia

Não pesa tanto assim

Estudo da OIT põe em xeque mito de que mulheres representam custo alto demais para as empresas.

Para que a gravidez não seja um obstáculo à ascensão profissional, a mulher moderna adia cada vez mais seu projeto de ser mãe. Pois esse fantasma, muitas vezes criado pelas próprias empresas, acaba de ser posto em xeque por uma pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O estudo, lançado em livro no mês passado, contesta o mito de que a mão-de-obra feminina seria muito mais cara do que a masculina em conseqüência da maternidade: os custos a mais representam menos de 2% da remuneração bruta mensal da mulher.

A pesquisa foi realizada pela OIT em cinco países da América Latina, entre eles o Brasil, onde tal custo é ainda menor: de 1,2%. Isso porque os benefícios médicos e financeiros associados à maternidade não são custeados diretamente pelos empregadores, mas pela seguridade social (Brasil, Argentina, México e Uruguai) ou por fundos públicos (no caso do Chile). O gasto efetivo das empresas fica por conta de auxílio-creche e amamentação.

Segundo a diretora do escritório da OIT no Brasil, Laís Abramo, os representantes de empresas brasileiras usam o argumento do custo trabalhista maior para justificar a preferência por homens:

    - As despesas também não são tão grandes devido ao nível salarial das mulheres no Brasil, que está em média 30% abaixo dos salários dos homens.

Laís se diz preocupada com a tendência de adiamento da maternidade, que pode fazer com que a mulher tenha dificuldade de engravidar quando resolver ser mãe. Como aconteceu com Sandra Bráulio, representante de vendas de uma multinacional do Ramo farmacêutico, que, hoje, aos 42 anos, tem gêmeos de um ano e nove meses:

    - Tinha medo de perder promoções, oportunidades. Achava que a maternidade podia esperar. Quando decidi ter um filho, tive dificuldade. Aos 35 anos, comecei a fazer tratamento e só fiquei grávida aos 40. Mas nem todos têm condições de bancar o tratamento, que é caríssimo. E hoje percebo que posso conciliar todos os obstáculos da minha carreira com a função de ter dois filhos.

Para Moema Aquino, diretora da Solução RH, a produtividade de uma mulher pode até crescer quando ela se torna mãe, devido ao aumento de responsabilidade e gastos. Moema avalia que, se possível, o projeto de gravidez deve ser colocado em prática a partir do terceiro ano da funcionária na empresa.

    - O início da carreira é um investimento. A empresa não conhece suas competências – diz Moema.

É preciso equilibrar o pessoal e o profissional

Para a gerente de Recursos Humanos da KPMG Assessoria em Gestão de Recursos Humanos, Andréia Barcellos, o momento certo para uma mulher engravidar, do ponto de vista da carreira, é quando ela entende que está qualificada para o mercado de trabalho:

    - O importante é conciliar planejamento familiar com profissional. Se a mulher já fez o MBA ou o curso de idiomas que pretendia, então é o momento certo. Se há um forte desejo de ser mãe e a profissional adia o projeto, inconscientemente pode culpar a organização e sua produtividade, cair.
A melhor hora de contar ao chefe que está grávida é outro motivo de aflição para muitas profissionais. Há quem acabe adiando esse momento até que seja impossível esconder. Moema Aquino, da Solução RH, diz que patrão deve ser informado o quanto antes:

    - De certa forma, o chefe ajudará na criação da criança. Afinal, em alguns momentos, a mulher terá de abrir mão do papel profissional assim como do papel de mãe. E precisará do apoio dele. Além disso, a empresa terá mais tempo para se organizar para a licença.

O governo vem tentando contribuir para reduzir o preconceito no mercado de trabalho. A ministra da Secretaria Especial de Políticas para a Mulher, Nilcéa Freire, lembra que a atuação do órgão envolve campanhas que visam a mudar os conceitos das organizações e a estimular benefícios como creches dentro das empresas que a diversidade agrega valor a seus produtos e serviços – destaca a ministra.

Caso de discriminação pode ser denunciado no MP

Já a procuradora Maria Julieta Tepedino de Bragança, do Ministério Público do Trabalho do Rio (MPT/RJ), explica que, se uma empresa discrimina mulheres no acesso ao emprego ou a ascensão de suas profissionais, ela pode ser denunciada no MPT, que, nesses casos, instaura inquérito civil público para investigar o fato. Se não houver acordo, o MPT pode exigir adequação à lei.

E, como prova de que a maternidade não é empecilho para que uma mulher tenha um bom desempenho profissional e ascenda na carreira, todas as entrevistadas dessa matéria – exceto a consultora de RH Andréia Barcellos, que está terminando seu MBA e planeja o casamento e a maternidade para o ano que vem – são mães.

Luciana Calaza

08/05/2005

Boa Chance – O Globo