Solução na Mídia

O que sua mesa de trabalho diz sobre você

Ter à frente o porta-retratos com fotos da família e dos amigos. Expor certificados de conclusão de curso. Manter a agenda toda anotada. Sabe-se que tudo o que está sobre a mesa de trabalho diz muito sobre a personalidade de cada profissional. Pois as empresas descobriram maneiras de checar o potencial dos funcionários, analisando a forma como eles expõem seus pertences. Calma, não se trata de arrumar a bagunça, às pressas. Até porque, muitos se entendem — e produzem bem — na desordem que criam. É só uma questão de estar consciente de que hábitos simples mostram o jeito de ser de cada um: se a pessoa é mais aguerrida, se tem capacidade de analisar dados, tendência a liderar e por aí vai.

Flávia Rodrigues

"Não se trata de falsidade. É boa convivência"

O consultor Jorge Fernandes Matos, diretor da empresa HLCA Human Learning Consultores Associados, diz que cada item exprime uma carga emocional diferente.

— Alguém que tem um troféu de futebol na mesa tende a uma postura mais competitiva do que quem exibe fotos dos filhos. Possivelmente, esta outra terá mais facilidade em profissões que exijam diálogo. Pela lógica, aliás, ainda se pode sugerir que o dono do troféu pode ter sucesso no mercado financeiro e o das fotos, num departamento de RH — diz Matos, que adota uma classificação de quatro estilos pessoais adaptada do conceito DISC, criado em 1926 por William Moulton Marshton.

O serviço prestado por este tipo de análise também é útil a quem se submete a ele. Segundo Matos, um vendedor ou alguém da área de estratégia pode aprender a se comportar de acordo com os indicativos que encontra pela frente. Um subordinado pode se relacionar melhor com seu chefe. E vice-versa. O conceito é útil, ainda, entre colegas:

— Se é perceptível que quem trabalha ao lado dá atenção a pessoas, por que não perguntar como vai sua família? São atitudes que não mudam a vida de alguém mas tornam o ambiente de trabalho bem mais ameno. Não se trata de falsidade, mas de boa convivência. A questão é que aquele que entende a mesa de trabalho do outro entende melhor o outro.

Na técnica aplicada pela HLCA, a observação leva à classificação de quatro tipos: profissionais dominantes, influentes, estáveis ou conformados. A pedido do GLOBO, a HLCA elaborou um teste para o leitor identificar os estilos primário e secundário de sua personalidade. O jornal também convidou a estilista Lenny Niemeyer, a dermatologista Paulina Kede e o empresário Cello Macedo, da rede Devassa, a fazerem o teste e revelarem os segredos de suas mesas de trabalho.

Consultores divergem sobre bagunça

Ambientes de trabalho impessoais, que poderiam ser ocupados por qualquer um, são um problema na opinião da consultora de RH Moema Aquino, da Solução Recursos Humanos. Até porque, a busca pela identificação do espaço é uma característica humana. Lugares vazios, diz ela, são sérios indícios de falta de afetividade:

— A impessoalidade total é estranha. Só é preciso ter cuidado para evitar a superexposição da vida particular.

A opinião de Moema sobre bagunça difere da exposta por Jorge Matos, que é condescendente com a desorganização:

— Não há problema em ter revistas ou pilhas de papéis mas há um limite para a desorganização. É bom lembrar que isso é impensável entre secretárias e contínuos. Para estes profissionais, ser metódico é questão de sobrevivência.

Outra preocupação das empresas é com a segurança da informação. Isto se traduz no fato de que o ambiente pode ter ar de displicência mas o usuário não pode deixar documentos e informações relevantes à vista. E, para isso, Moema não aceita desculpas do tipo “eu não consigo”. O erro está em se afastar da mesa e deixar um e-mail com informação confidencial à vista. Ou escrever um bilhete para lembrar-se de que precisa falar com alguém evidentemente ligado a um projeto importante e esquecê-lo em algum lugar:

— Imagine que alguém tem uma idéia genial para uma campanha publicitária e sai para tomar um café deixando os layouts por cima da mesa. Em segundos, a idéia é roubada. O ideal é ter senha no computador ou guardar tudo em pastas ao fim do dia.

Influentes são os que mais personalizam seu espaço

O próprio Jorge Matos lembra que a aplicação destes métodos de análise é relativa:

— Há empresas em que o funcionário precisa responder e-mails num tempo máximo. Existem, ainda, pessoas que trabalham em turnos e são obrigadas a deixar a mesa limpa para o colega que chega.

Em geral, os quatro tipos de personalidade do conceito DISC, usado por Matos, refletem as expectativas dos profissionais. Os mais competitivos tendem a ter uma mesa desorganizada pois sempre estão muito ocupados para se dedicarem a uma faxina. Suas agendas registram compromissos. Os influentes são os que mais personalizam o ambiente. Gostam de fotos, plantas e antigüidades. São do tipo que se organiza na confusão. Podem se interessar pela conversa, ao mesmo tempo em que adiam uma decisão.

O estável tem mobiliário clean e gosta de placas na porta. Cercado de blocos e materiais de escritório, sabe onde tudo está. O conformado tem um escritório funcional, mobiliado com bom gosto em estilo convencional. Ao redor, há gráficos e relatórios que servem de referência às suas teses. É alguém que não divide sentimentos e procura precedentes para dar início a ações. É polido mas pode ser evasivo.

Os resultados do teste dos entrevistados pelo GLOBO combinam com seus perfis. A dermatologista Paulina Kede fez 22 pontos no perfil S e 20 no C. Organização é seu forte:

— Se acabar a luz, sou capaz de achar qualquer coisa na minha sala. Cada gaveta tem uma função: medicamentos, máquina fotográfica, documentos e contatos de farmácias.

Com 25 pontos (em 28 possíveis) no quesito D, o empresário Cello Macedo é justamente um dos que não têm tempo de arrumar a bagunça.

— O gaveteiro é um lugar intermediário entre mesa e lixo. Contratos arquivados ficam lá.

Lenny Niemeyer, com 20 pontos nos quesitos D e I, sonha com uma mesa limpa.

— Só que, se outra pessoa arrumar a minha, me perco — diz ela, que não dispensa a imagem de Santa Teresinha.

O Globo – Boa Chance
Flávia Rodrigues

19/03/2006