Solução na Mídia

O Trabalho antes do nascer do sol

O dia do operador de sistemas Paulo Alonso termina por volta das 9h da manhã. Depois de tomar tranqüilamente seu café, ler com atenção os jornais e se despedir da mulher, coloca o pijama e vai dormir até às 15h. Sono merecido. Paulo trabalha de 22h às 6h como supervisor de noite do InvestShop, um portal da internet. Troca o dia pela noite, sim, mas também leva para casa um salário superior ao de seu equivalente diurno. Gente como Paulo vê na madrugada novos nichos de trabalho. São empresas ansiosas em oferecer mais serviços ao cliente.

    - A atividade na madrugada exige capacidade para solucionar problemas e, por outro lado, oferece liberdade de ação. Esse trabalho mostra que a empresa confia e reconhece o profissional – diz Paulo. – Mas o amor está em primeiro lugar e, no princípio, a troca de horário me preocupou. Quando vi que a relação com minha mulher melhorou, isso ajudou na profissão.

A preocupação de Paulo com sua família faz sentido, dizem os especialistas. Isso porque, acrescentam, as empresas procuram observar como anda a vida particular dos futuros profissionais da madrugada:

    - É importante saber até que ponto a família influencia no trabalho. Afinal, os profissionais perderão bastante contato com os parentes, estarão fora de eventos sociais e vão abrir mão de parte do lazer. É preciso saber quem está disposto a agüentar condições assim – diz Lúcia Costa, consultora da NBS Recursos Humanos, observando que as empresas tendem a dar preferência a solteiros ou a pessoas sem filhos.

Empresas que contratam para a madrugada exigem ampla experiência. Nada mais coerente, já que esse profissional tem, em geral, a responsabilidade de manter o funcionamento de equipamentos, responder pela manutenção de sistemas, atender ao cliente ou solucionar problemas. Também deve ser levado em conta o biorritmo de cada um, ressalta Moema Aquino, consultora da Solução Recursos Humanos:

    - Existem pessoas que produzem mais e melhor à noite. Então, esse horário acaba sendo o ideal para elas.

O que se percebe ainda é que, mesmo no trabalho, esse profissional acaba sendo mais solitário que os demais. Afinal, as empresas não contratam grandes equipes para o turno da madrugada. Daí a necessidade de ter gente capaz de tomar decisões.

    - É claro que sempre haverá pessoas com quem falar, mas o profissional deve preparar-se para, na maioria dos casos, agir por conta própria – diz Zaira Souza, consultora da Pró Recursos Humanos.

Roberto Barretto, diretor do Brasillis Idiomas, criou, há quatro meses, aulas particulares na madrugada. A iniciativa, diz, trouxe aumento de 7% à receita da empresa e salários até 60% mais altos aos professores:

    - As aulas são ideais para alunos e representam uma maneira diferente de ampliar a renda do professor.

30/09/2001

O Globo